O novo romance da argentina Gabriela Cabezón Cámara, "As Meninas do Laranjal", arquiteta-se como uma epopeia inventiva de reescritura da vida de Catalina de Erauso, que viveu de 1592 a 1650, conhecida como freira alferes, que se vestiu de homem e lutou pela colonização espanhola na América e o consequente extermínio de povos originários.
O livro acaba de vencer, nos Estados Unidos, o National Book Award para melhor literatura traduzida, premiando a autora e sua tradutora Robin Myers pela edição americana.
No lugar da curiosidade histórica sobre o travestimento de Catalina em Antonio, presente na autobiografia da freira, Cabezón Cámara elege o despertar transexual, as viagens, a escrita de uma infinita carta e a insurgência à Coroa espanhola como linhas de força de uma ficção atenta às tramas ecológicas e políticas que forjam a vida na selva indígena sul-americana.
A autora subverte a narrativa colonial hegemônica ao compor por múltiplos ângulos o desvio de rota e fidelidade do personagem Antonio em relação à metrópole espanhola, baseando-se numa pesquisa apurada que vai de antigas canções bascas às orações em latim, alcançando a língua e o imaginário dos mbiás-guaranis.
A edição brasileira tem tradução de Silvia Massimini Felix, que materializa com maestria toda a voltagem de dicções arcaicas líricas e contemporâneas, em uma recriação bem-sucedida.
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Cabezón Cámara teve dois romances publicados no Brasil pela editora Moinhos: "As Aventuras da China Iron", de 2023, uma revisão do poema clássico argentino "Martín Fierro", de 1872, e "Nossa Senhora do Barraco", de 2024, em que o urbano e o religioso se bifurcam em duas narradoras e múltiplas perspectivas da favela de El Poso, em Buenos Aires.
A fuga é um mote narrativo que aparece em todos os romances da autora, mas neste mais recente ganha contornos de desembarque, mesmo que a narrativa esteja enredada por vulnerabilidades e violências experimentadas e cometidas por Antonio.
O ímpeto de peregrinação de quem passou a infância em um convento e a pulsão de viver de acordo com sua escolha de gênero fazem da jornada dele como marinheiro, tropeiro, secretário do capitão da guarda colonial e outra vez, fugitivo, uma incursão política, mística e íntima.
O romance apresenta grande amplitude geográfica e histórica, com territórios que hoje conhecemos como Chile, Peru, Bolívia sendo todos palmilhados pelo grumete em suas desventuras como personagem e intermitente narrador.
Na última das viagens, aporta na região da selva paranaense, que se estende por uma área de fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina e é marcada pela intensa presença dos jesuítas.
Ali, sua condenação à forca e subsequente absolvição é assumida por Antonio como um milagre concedido pela Virgem do Laranjal, em realce da religiosidade que atravessava as convicções e ações comumente violentas da colonização.
Ante esse arrebatamento de dádiva e a estetização de sua existência pela escrita de uma infindável carta à tia, diretora do convento do qual ele fugiu ainda na adolescência, o resgate de duas crianças indígenas ganha contorno de acontecimento central do romance.
A obstinação do protagonista em libertá-las do gabinete oficial onde estavam enjauladas é a moeda que ele encontra para equacionar sua dívida com a Santa e seu devir como homem livre.
A condução apressada do enredo nos momentos de escrita da carta e mesmo durante a construção dos vínculos de Antonio com as crianças Michi e Mitãkuña acabam diminuindo o desenvolvimento afetivo da leitura, enfraquecendo sua densidade e seu empenho polifônico, barroco e regionalista, características tão intensas dos outros romances.
Antonio tem seu arco apresentado como quase redentor das meninas indígenas, e sua transfiguração derradeira invoca um apelo romântico que destoa da investigação dramática e revisionista da trama.
Impossível não ler "As Meninas do Laranjal" sem lembrar as agruras e peripécias de Riobaldo em "Grande Sertão: Veredas" e o conto "Meu Tio o Iauaretê", de Guimarães Rosa, assim como o mais contemporâneo "O Som do Rugido da Onça", de Micheliny Verunschk.
Em "As Meninas do Laranjal", as onças encarnam o desejo e a busca por uma terra sem males, ainda que para isso manifestem suas forças com ressonância mais contingente do que mítica. É um livro ambicioso, tanto pela temática como pela forma narrativa, mas que não alcança a grandeza dos anteriores da autora.



