"Ocupar o ensino superior é uma nova possibilidade para pessoas trans" - Revista Galileu

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Letícia Nascimento: Ocupar o ensino superior é uma nova possibilidade para pessoas trans (Foto: Divulgação)

Em 2017, Letícia Carolina Pereira do Nascimento se permitiu comprar um vestido. Em um mês, ela já tinha dois. Não demorou muito para seu guarda-roupa ser dividido ao meio, e as peças femininas ocuparem tanto espaço quanto as masculinas. Naquela época, a piauiense começava suas experimentações com a travestilidade. Hoje, aos 32 anos, ela se apresenta como mulher travesti, negra e gorda. No currículo, leva também a conquista de ser a primeira professora trans da Universidade Federal do Piauí (UFPI), onde leciona no curso de pedagogia, ministrado em Floriano, cidade na fronteira do estado com o Maranhão.

Nascimento tem se tornado referência nos estudos sobre gênero e educação no Brasil e é uma fonte e inspiração para jovens estudantes LGBTQIA+. “Desde que eu cheguei na UFPI, alunos e alunas, especialmente LGBTQIA+, me abraçam e dizem que estão muito alegres por eu estar dentro dessa instituição”, conta a professora e pesquisadora, em entrevista a GALILEU. “Para mim, ocupar um cargo no ensino superior é muito importante pela representatividade. É uma construção de novas possibilidades para pessoas trans* [o termo junto ao asterisco abrange indivíduos travestis, transexuais e não binários].”

Por ser uma das principais pesquisadoras e ativistas da área, Letícia foi convidada a escrever o décimo título da coleção Feminismos Plurais, coordenado pela filósofa e ativista negra Djamila Ribeiro. Publicado pela Editora Jandaíra em maio de 2021, o livro Transfeminismo explica conceitos básicos de gênero, transgeneridade, mulheridade, feminilidade e feminismo — com a mesma linguagem acessível e consistente que a professora usa para informar e conscientizar seus 11,8 mil seguidores no Instagram sobre pautas pertinentes à população trans*.

Na entrevista a seguir, a docente conta como a transgeneridade se aproximou do movimento feminista, dando origem a uma corrente própria que tem se consolidado no século 21. Além disso, ela fala do papel da discussão sobre gênero em sala de aula e como o acolhimento de estudantes trans* na escola é decisivo no futuro desses jovens.

Em Transfeminismo, você apresenta conceitos que nos ajudam a repensar o gênero, como feminilidade e mulheridade. Por que esses dois termos são tão importantes para entendermos as transgeneridades?

Eu utilizo esses conceitos para apontar o processo de fabricação de nós mesmas, entendendo que não somos mulheres nem femininas naturalmente e que a mulheridade e a feminilidade não são categorias de gênero únicas, nas quais todas conseguimos nos encaixar. Isso porque existem diversas formas de sermos mulheres. A imagem de “mulher” ao qual estamos habituadas é apenas uma dessas formas, que foi construída por uma cultura europeia, burguesa, branca e cristã imposta a nós.

Para que esses padrões não nos limitem, o feminismo nos ajuda a subverter ideais de mulheridade, que estão relacionados à aparência do nosso corpo, e de feminilidade, associados aos estereótipos de gênero e ao que são considerados “comportamentos femininos”. Entre pessoas transgêneras, é comum que nem todas reivindiquemos ser mulheres, mas reivindicamos, sim, uma feminilidade, uma vivência feminina, pois dialogamos com esses estereótipos. Todos e todas nós, em certa medida, tecemos um diálogo com esses padrões.

Historicamente, o movimento feminista é dominado por mulheres cisgênero. A partir de que momento as pautass da comunidade trans* passaram a ser incluídas nass discussões feminista?

Primeiro, é preciso dizer que travestis e transexuais sempre estiveram à margem de movimentos sociais. Dentro do movimento LBGT, nós tínhamos um lugar marginal, porque havia um predomínio da identidade de homens gays brancos. Além disso, apesar da maior parte de nós, travestis e transexuais, sermos negras, nunca tivemos um acolhimento efetivo dentro de movimentos negros. Isso também se aplica ao movimento feminista, que, no início, também teve uma rejeição à entrada das nossas corporalidades — o que aponta à imensa abjeção que os nossos corpos despertam até mesmo dentro do campo progressista e dos movimentos sociais.

De qualquer forma, na segunda metade do século 20, as mulheres travestis e transexuais viram no feminismo um lugar potente de ocupação, pelo modo como as mulheres cisgêneras construíam redes de solidariedade e focavam o centro das discussões na fala e vivência da mulher. Além disso, o feminismo toca em um tema central para nós: o gênero. Diferentemente de outros grupos LGBTQIA+, a transgeneridade não trata apenas de orientação sexual, mas também de gênero. Por isso, essa relação entre pessoas trans* e feminismo foi se estreitando, até que, nos anos 2000, consolidou-se a corrente transfeminista.

Antes disso, já na década de 1990, houve um movimento de autonomia bastante importante para a população transgênera, que foi a criação da Associação de Travestis e liberados (Astral). O que estava acontecendo naquele contexto que permitiu isso?

Há duas razões bem relevantes. A primeira foi o real descontentamento com o Movimento Homossexual Brasileiro (MHB), onde travestis e transexuais não tinham espaço de fala, participação, pautas e reivindicações. A segunda está relacionada a investimentos públicos voltados para o combate à epidemia de HIV/aids. Esses projetos financiados pelo governo impulsionaram movimentos LGBT de modo geral, capacitando essa população e promovendo encontros.

Nessa época, travestis e transexuais começaram a formular seu próprio movimento social no Brasil. Anteriormente, é claro, já havia organizações que contavam com a atuação de pessoas transgêneras. Nos anos de 1970, associações de prostitutas já tinham lideranças levantando as reivindicações da comunidade trans*. Uma dessas líderes é Jovanna Cardoso, que ajudou a fundar o movimento transgênero brasileiro duas décadas mais tarde.

"Ao entrarmos na universidade, desafiamos o limiar entre os conhecimentos acadêmicos e a vivência de mulheres travestis e transexuais""

Letícia Nascimento comenta o campo de pesquisas feitas por transfeministas no país

E a partir de que época esse movimentos sociais transgêneros começaram a ser estudados pela academia?

Nos anos 2000, algumas travestis e transexuais começaram a produzir e sistematizar esses conhecimentos. Entre as pioneiras estão Jaqueline Gomes de Jesus, Caia Coelho, Viviane Vergueiro e Luma Andrade, que é professora da Unilab [Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, no Ceará] e foi a primeira travesti brasileira a
se tornar doutora. Elas começam a entender a importância da ocupação das universidades, inaugurando um campo sistemático de pesquisa.

O que é muito particular dos estudos feitos por nós, transfeministas brasileiras, é que estão sempre associados ao movimento social, pois nos dedicamos tanto à academia como ao ativismo. Faz parte da experiência trans* borrar fronteiras. Então, ao entrarmos na universidade, desafiamos esse limiar entre os conhecimentos acadêmicos e a vivência de
mulheres travestis e transexuais, levando a rua e a periferia para as universidades. Atualmente, é muito baixo o número de docentes e pesquisadores de identidades transgêneras vinculados a faculdades — estimamos entre 15 e 20 no país —, mas o número de estudantes na graduação tem crescido.

Com base na sua experiência, você considera que o ensino superior está preparado para acolher esse alunos e profissionais?

Pessoalmente, meus maiores conflitos no ensino superior dizem respeito ao meu nome social. Ainda não fiz a retificação dos meus documentos e isso gera constantes conflitos dentro da Universidade.

Alguns documentos públicos já foram divulgados com o meu nome civil, mesmo que na lei conste que o social deve ser usado nesses casos, e isso acaba me desgastando. Os próprios alunos já fizeram correções à caneta em murais da faculdade quando viram que o meu nome civil havia sido usado incorretamente. Na minha instituição, a UFPI, só tem eu de professora travesti, mas há alunos e alunas LGBTQIA+ que também relatam esses problemas. Constantemente, o nome social não é respeitado dentro de sala de aula, pois alguns professores não chamam pelo nome correto. Como não temos tantas pessoas trans* em espaços acadêmicos, a universidade não se adapta.

A despeito disso, nunca fui desrespeitada dentro das minhas relações profissionais, nunca recebi ofensas ou ameaças. Noto que as pessoas respeitam a autoridade de professora — elas podem até não gostar de eu ser travesti, mas eu sou professora, então a gente tem que ter um relacionamento minimamente saudável. Até hoje, nenhum aluno e nenhuma aluna me desrespeitou dentro de sala de aula. Sempre fui tratada com o meu nome social. Acho que só uma vez ou outra alguém me chamou de professor, mas imediatamente corrigi e a pessoa se retratou na mesma hora.

Desde que cheguei na UFPI, alunos e alunas, especialmente LGBTQIA+, me abraçam e dizem que estão muito alegres por eu estar dentro dessa instituição. Para mim, ocupar um cargo no ensino superior é muito importante pela representatividade. É uma construção de novas possibilidades para pessoas trans*. Por isso, defendemos a criação de políticas como cotas para travestis e transexuais, tanto na graduação como na pós-graduação.

E como foi o seu processo de começar a estudar a relação entre educação e gênero?

Na minha graduação em pedagogia, pesquisei como professores e professoras de fundamental trabalhavam questões de gênero e sexualidade na escola — e acabei descobrindo que há uma ausência desses componentes no planejamento curricular, mesmo que seja um tema que alunos e alunas vivenciam e queiram trabalhar. No mestrado, fiz uma pesquisa com jovens do ensino médio no intuito de entender o que eles sabiam e como eles aprendem sobre questões de gênero e sexualidade. O que eu percebi é que eles aprendem bastante dentro e fora da escola, mas não a partir dos conteúdos oficiais de ensino, que silenciam essas questões.

Agora, no doutorado, estou fazendo uma pesquisa com pessoas transgêneras de modo geral (travestis, transexuais e não binárias) para avaliar como suas subjetividades são construídas, entendendo esse processo como algo eminentemente educativo, porque nós aprendemos a ser quem somos. Historicamente, a relação das corporalidades travestigêneres com a educação é uma relação de exclusão. A maior parte de nós, pessoas trans*, não consegue concluir o ensino fundamental porque, já em tenra idade, começamos a passar por experiências transfóbicas. Há, na verdade, um processo de expulsão dessas corporalidades da escola, um espaço normativo no que tange ao gênero.

"As crianças manifestam seus desejos e nós, enquanto adultos e adultas, exercemos um juízo de valor extremamente moralizante sobre eles.""

Letícia Nascimento fala sobre a importância de não cercear liberdades na infância

Como a ausência da discussão sobregênero nas escolas afeta a vida e o futuro de jovens transgêneros?

Muitos são expulsos de casa ainda na adolescência e ficam sem ter onde morar, estudar e comer. Tudo isso empurra as travestigeneridades para a prostituição, um espaço marginal da nossa sociedade. Por isso, protestamos contra essa ser nossa única opção de futuro. Podemos ser prostitutas, mas não podemos ser apenas prostitutas. Nós devemos ter direito a escolher outras profissões, e isso se dá a partir da educação.

Nós vivemos em uma sociedade que atribui enorme valor à experiência escolarizada para a entrada no mercado de trabalho formal, então, quando você exclui travestis e transexuais da escola, elas também ficam alijadas desse mercado. Por isso temos pautado a educação inclusiva, sem que rótulos de gêneros estejam tão presentes.

É preciso pensar em uma infância livre, onde meninas possam brincar de carrinho e meninos possam brincar de boneca sem que haja uma repressão. É preciso construir um espaço onde eles possam exercer a liberdade de brincar com o que sentem vontade, sem um cerceamento das liberdades que são próprias da infância. As crianças manifestam seus desejos e nós, enquanto adultos e adultas, exercemos um juízo de valor extremamente moralizante sobre eles. Se conseguirmos criar esse ambiente na educação, será muito mais saudável para a comunidade LGBTQIA+ como um todo.

Na sua experiência, você teve liberdade para fazer essas experimentações desde a infância?

Não, eu passei por um processo de coerção de gênero na infância, assim como várias outras crianças. Eu não sentia que aquele papel de gênero que impunham pra mim era o meu lugar, mas entendia que era o que todos esperavam de mim. A partir da adolescência, fui entendendo que o mundo tem uma relação de desprezo por certas identidades e, se eu me aproximasse delas, também passaria por essas violências — quer dizer, elas seriam ampliadas, já que estavam presentes desde a minha infância. Aos 18 anos, me entendi como homem gay afeminado, mas continuava achando que não era bem o que eu realmente era. Conforme ia estudando e conhecendo a comunidade LGBTQIA+, fui percebendo que precisava criar forças e coragem para ser quem eu realmente era. E isso aconteceu em 2017, entre os meus 26 e 27 anos, quando comecei a experimentar a travestilidade.

Em 2019, realmente assumi minha identidade travesti. Essa minha demora se dá justamente pelas violências que travestis passam. Eu tinha medo de como isso poderia me prejudicar no mercado de trabalho. Mesmo assim, fui construindo diariamente essa identidade, ao mesmo tempo que iniciei minha carreira como professora temporária em uma universidade pública.

Se os jovens não encontram acolhimento nas escolas e na família, onde achar suporte para, assim como você, assumir novas identidades de gênero?

Em grupos de amigos LGBTQIA+ e nas redes sociais, onde muitos textos sobre a vivência de travestis e transexuais podem ser lidos e compartilhados. A ocupação dessas redes sociais e da internet é como reivindicar a existência dessa comunidade, pois, em geral, não tem espaço para travestis, transexuais e pessoas transgêneras em publicações tradicionais, sejam elas acadêmicas ou para o público geral. No entanto, as experiências na internet acabam sendo uma terra de ninguém, porque algumas pessoas se sentem autorizadas para expressar seus ódios e suas raivas. E aqueles que foram atacados procuram grupos e pares para se sentirem acolhidos.

Minha dica sobre ataques é: procure ter amigos e amigas que estejam nesse processo de organização política, a partir dos movimentos trans* ou do movimento LGBTQIA+. Faça parte de um grupo onde você possa se proteger ou compartilhar experiências sem julgamentos. No espaço das redes sociais, a experiência é fortalecida quando nós compartilhamos isso com os nossos iguais, com aqueles que estão dentro da comunidade LGBTQIA+. Inclusive, eu acho essa expressão “comunidade” muito forte, porque é realmente a criação de uma irmandade a partir de uma experiência compartilhada — o que no feminismo é chamado de sororidade. Assim, podemos criar estratégias de resistência, de enfrentamento das violências.

Em grande medida, esses ataques na internet têm apoio político conservador. O que fazer para impedir o avanço desses comportamentos?

Nós devemos entender, primeiramente, o quão danoso para a nossa sociedade é o avanço de pautas conservadoras, em especial as que estão inseridas dentro de uma ortodoxia religiosa. Por isso, precisamos compreender a importância de votar com consciência, de votar em pessoas que defendem a democracia, o direito de todos e todas existirem e serem quem desejam ser. Isso é algo que precisamos pautar, assim como a eleição de mulheres, pessoas negras e pessoas LGBTQIA+ que dialoguem com a defesa da democracia, da liberdade e dos direitos sociais. É um momento em que nós precisamos sair de cima do muro e entender que o que está em jogo é a democracia brasileira e a nossa liberdade de expressão.

Vivemos um momento político muito delicado para o corpo docente universitário, pois várias universidades estão sendo coagidas a não manifestarem seus pensamentos. Existem professores e professoras que estão sendo processados por manifestarem suas opiniões fora de sala de aula, o que é uma completa repressão de liberdades e vai contra os nossos direitos institucionais. O medo de expressar suas opiniões por conta de repressão política é algo muito grave. Nós precisamos entender que o conservadorismo liberal que avança no nosso país tem sido prejudicial para a nossa vivência democrática e para a experiência de liberdade tanto de pessoas LGBTQIA+ como de pessoas negras, mulheres, indígenas e quilombolas.

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Transfeminismo, de Letícia Nascimento (Jandaíra, 191 páginas, R$24,90) (Foto: Divulgação)

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