'Eu não sonhei sozinho', diz atleta transexual após ser reconhecido por Federação Brasileira de Powerlifting - G1

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Educador físico e coaching de crossfit, João Vieira Caetano, de 33 anos, diz ter encontrado dificuldades em sua trajetória desde que se identificou como homem transexual. Mas, com o apoio da família e dos amigos, foi possível não só passar pelo processo de transição como também conquistar o reconhecimento profissional na modalidade esportiva que é a paixão da vida dele: o powerlifting.

Recentemente, a Federação Brasileira de Powerlifting, entidade que representa competidores de levantamentos básicos, como supino, agachamento livre e com pesos, reconheceu João como atleta masculino.

“Estou muito realizado por saber que toda essa jornada valeu a pena. Vale muito a pena. Eu sou grato. Eu não sonhei sozinho, muita gente acreditou no meu sonho. Eu tinha duas opções: desistia e ficava no meio do caminho ou usava como força e mostrava para as pessoas que eu sou exatamente o contrário do que elas pensam. Eu preferi a segunda opção.”

João Vieira Caetano é competidor de powerlifting — Foto: Jefferson Severiano Neves/EPTV

Transição de mulher para homem

Caetano nasceu Desiree em Ribeirão Preto (SP), mas desde criança não se sentia mulher. Com pouca informação na época, chegou a pensar muitas vezes que tinha uma doença mental.

“Eu não tinha essa informação que tem hoje sobre trans. Hoje, a internet te dá portas de informações, mas na minha época não existia. Eu achava que tinha algum problema mental porque eu não conseguia gostar do que eu via. Eu sabia que tinha algo errado com meu corpo, mas eu não sabia o que era. Até eu descobrir, foi um tempo.”

Apesar da dificuldade, ele sempre teve apoio da mãe, Marinês Terezinha Vieira, que a incentivou a lutar e a assumir a transexualidade.

“Na época, a palavra trans soava como um palavrão. A parte mais difícil é você se aceitar, porque quando você consegue se aceitar, se colocar perante a sociedade, as coisas mudam. Tudo depende de como você se comporta.”

Caetano mostra fotos de quando era ainda adolescente, antes do processo de transição — Foto: Jefferson Severiano Neves/EPTV

A prática de exercícios físicos sempre foi uma paixão em sua vida, inclusive virou coisa séria quando decidiu se tornar profissional de educação física. Foi aí que surgiram as primeiras competições de powerlifting, mas que ainda disputava na categoria feminino.

“Como Desiree eu ganhei vários campeonatos. Então, eu comecei o processo de transição. No final de 2017, eu mudei todos os meus documentos, passei a me chamar João Vieira Caetano e solicitei a mudança de gênero à federação. Na época, eles não sabiam direito como agir comigo. Eu fiquei às escuras.”

Primeiro título masculino

Em 2018, ele conheceu a campeã mundial de powerlifting Ana Rosa Castellain, que também é treinadora e árbitra de competições. Mesmo sem ser reconhecido pela federação brasileira, Ana Rosa conseguiu uma vaga para Caetano no campeonato estadual de Santa Catarina e ele seguiu para a primeira disputa como homem.

“Ela falou que seria um desafio para mim e para ela. Eu falei: tudo bem, eu topo. No dia da competição, quem sabia eram a arbitragem, a mesa dos jurados e ela. Os atletas não sabiam para não causar confusão depois de querer falar alguma besteira por eu ser trans. Entrei como João Vieira Caetano e ganhei.”

João Vieira Caetano exibe orgulhoso o RG após a transição de gênero — Foto: Jefferson Severiano Neves/EPTV

A vitória de Caetano deu uma guinada na vida dele e teve ampla repercussão. Ele recebeu convites para falar publicamente sobre sua história e assumiu a coordenação das aulas de crossfit em academia de ginástica em Cajuru (SP).

Por causa da pandemia, muitas das competições acabaram sendo suspensas. O tempo, porém foi favorável já que a federação finalmente conseguiu deliberar sobre o pedido de Caetano para a mudança de gênero.

“Eu recebi um e-mail do Gabriel Coimbra me dizendo que eu era o primeiro caso e que eu era muito bem-vindo. Estou muito realizado por saber que toda essa jornada valeu a pena. Vale muito a pena. Eu sou grato.”

João Vieira Caetano é atleta de powerlifting — Foto: Jefferson Severiano Neves/EPTV

O aval da federação veio com a apresentação de um documento chamado TUE (therapeutic use exemption), em que médicos responsáveis pela terapia hormonal dele atestam a legalidade do uso de testosterona pelo atleta.

“Esse documento atesta que eu faço uso de testosterona apenas para chegar ao nível de testosterona dos homens, que não pode passar de mil a testosterona por decilitro de sangue. Eu, em um corpo feminino por dentro, jamais vou chegar nesse nível [naturalmente], então eu faço esse uso artificial.”

O nome de Caetano é uma homenagem ao pai, João Antônio Vieira. Por anos, os dois ficaram se falar, mas a relação voltou a ser saudável quando o filho finalmente se tornou um homem.

“Nós ficamos sem conversar por quatro anos, a gente foi se dar bem depois de 20 anos, já como Caetano. Teve toda uma história, esse nome não é a toa. Eu sinto paz no coração.”

João Vieira Caetano e mãe, Marinêz Terezinha Vieira — Foto: Arquivo pessoal

Mesmo com alguns conflitos, Caetano garante que sempre se sentiu acolhido pela família e ele tem na mãe uma fonte de inspiração.

“Minha mãe é a mulher da minha vida. Ela é minha fã, meu tudo. Eu tenho muita sorte em ter uma família que me aceita, que me apóia, independentemente do que eu quiser ser. Isso para mim foi fundamental.”

Agora, competidor masculino de powerlifting, Caetano recebe o carinho de pessoas que dizem se inspirar na história dele e sonha alto.

“Eu ainda vou ser campeão brasileiro como João Caetano Vieira. Quero fazer meu trabalho, continuar minha jornada, tentar ser o melhor atleta com humildade. Quero viver e curtir a paisagem. Da dificuldade, a gente tira o aprendizado.”

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